A PRIMA DA VIZINHA
Uma das primeiras cafajestadas que cometi na adolescência está relacionada a uma vizinha (leia-se, a vítima) que morou no mesmo condomínio que eu e minha família durante boa parte dos anos oitenta. Aliás, os condomínios, se vistos por um certo ângulo (logo vocês vão entender qual), podem ser um ambiente muito propício à formação de um jovem cafajeste. Como?
Pensem! As brincadeiras no pátio, nas escadas, na garagem e em outros cantos de um conjunto de prédios podem revelar tendências das mais variadas. No caso de um amigo de infância, o homossexualismo (não comigo!). Para uma amiga, a certeza de que gostava muito de meninos. Até aí, nada! O problema era que a garota gostava tanto da coisa que acabou queimando a própria imagem no condomínio e se tornou o que nós chamávamos, na época, de garota “Piscina Tone”, a “alegria da garotada”, coisas de comercial de TV antigo. Voltando ao meu caso, as brincadeiras de criança pelos cantos do condomínio revelaram uma tendência positiva no ponto de vista masculino mas que trouxe péssimas conseqüências para algumas garotas. Eu simplesmente não resistia a um rabo-de-saia.
Pois vamos aos fatos. Certo dia, chegou ao condomínio uma família vinda de Curitiba. Pai, mãe e duas filhas. Uma adolescente – cerca de 16 anos – que aqui chamarei de Carla e a outra com apenas três anos de idade. Ah! Um detalhe. Quase todos descendentes de japoneses, menos a mãe, que tinha traços europeus. Não preciso dizer que adorava o biótipo oriental (e também o europeu, o africano, o nordestino, o indígena...).
Carla era realmente bonita. Apesar de não ser do tipo que se possa considerar como uma beleza incontestável, eu a considerava muito bonita. O certo era que todos os caras da área se interessaram pela carne nov...quer dizer, pela nova moradora e todos a cercaram de atenções. Queriam dar dicas de como se locomover, se divertir, aonde ir, o que fazer. No meio disso tudo, a melhor estratégia de aproximação era não mostrar interesse nenhum em fazer parte daquele circo. Era o elemento surpresa. Chamar a atenção ao não dar atenção. Nem preciso dizer que logo a menina estava querendo saber quem era aquele garoto que saía de perto quando ela chegava, que apenas esboçava um “oi” seco quando passava por ela. Até que um dia, ao nos encontrarmos no elevador do primeiro bloco, ela finalmente resolveu fazer tais perguntas pessoalmente.
Neste momento devo chamar a atenção para um detalhe. Ao contrario da maioria dos caras que conheço, nunca fiz parte do clube dos apressadinhos, aqueles caras que, ao conhecerem uma mulher, partem logo para o beijo ou, no mínimo, para a tentativa. Sempre agi como um verdadeiro caçador. Espreitava minha presa. Nunca tinha pressa. Por mais que a aproximação durasse semanas ou meses, o que importava era a conquista. Tudo bem que, como qualquer adolescente galinha, eu me sentia o máximo, simplesmente irresistível. Com o tempo percebi que não era bem assim, não tinha sido agraciado com o dom da beleza e parti para a exploração de outros talentos. Mas isso é papo para um outro capitulo.
Do momento em que eu e Carla conversamos pela primeira vez em diante tudo foi muito fácil. Eu já havia chamado tanta atenção com a minha aparente indiferença que nem precisei fazer aquele tradicional interrogatório, ela fazia questão de me contar tudo sobre sua vida. O que gostava, o que detestava, como era Curitiba, o namorado que deixou por lá. E foi justamente neste ponto (o namorado que ela teve que abandonar em Curitiba) que notei qual seria o caminho a ser tomado. Qual seria o personagem a ser interpretado. A partir daquele momento eu seria o novo amigo, o consolador.
Logo minha estratégia se mostrou muito eficiente e nós começamos a ficar (não é assim que vocês dizem?) todas as noites. Primeiro, às escondidas, quando todos subiam para seus apartamentos. Depois começamos o que parecia ser um namoro, mas sem grandes compromissos. Vocês entendem, não é? Tudo correu bem durante uns cinco ou seis meses até que, num fim de semana de dezembro, ela surgiu. Baixinha, nem magrinha nem gordinha, prefeita. Loira, traços europeus, olhos verdes, coxas roliças e seios que levaram a galera a aplicar-lhe o apelido instantâneo de “fura-bolo”. Em resumo, meu tipo preferido de mulher. Naquele momento, é claro! Um cafajeste adolescente não tem tipo preferido. No meu caso, devo confessar que as baixinhas sempre me encantaram mas, tirando esse detalhe, todo o resto era bem-vindo. A única frase que passava pela minha cabeça era: “Eu quero isso pra mim”. “Eu quero isso pra mim”.
Após as devidas apresentações, a Rosane – era o nome daquela pequena deusa curitibana, prima da Carla por parte da mãe – disse que tinha muita curiosidade a respeito da fama de alegres e mulherengos atribuída aos fluminenses (lembrem-se que carioca é aquele que nasce na cidade do Rio de Janeiro). depois dessa, me senti obrigado a provar que as coisas não eram bem assim. Poderiam ser muito piores.
Dois dias após conhecer da Rosane, cheguei mais cedo da escola, pois era dia de prova final. Ao passar pela portaria e olhar para os fundos do pátio, como fazia sempre que entrava no condomínio, notei algo diferente naquela paisagem de todo dia. Era ela, meu objeto curitibano de desejo, sozinha sentada ao sol. Neste momento me senti como num daqueles desenhos animados onde um anjinho e um capetinha ficam, um de cada lado da cabeça de um personagem qualquer, representando a eterna dúvida: serei bonzinho ou serei humano? Eu resolvi ser humano. Sentei-me ao lado dela e falamos sobre um monte de coisas que não consigo me lembrar. Só me lembro que fiz várias piadinhas a respeito da espantosa beleza da guria, todas foram retribuídas com um sorriso que mais parecia um ímã me atraindo em direção àquela boca. Logo, a Carla chegou e eu, como sempre, disfarcei.
Na semana seguinte eu, como a Rosane, já estava de férias. A Carla ainda teria mais uma semana de provas. Isso se não ficasse em recuperação, o que era provável, visto que a adaptação à nova escola havia sido difícil para ela. Era a chance que eu precisava e não pretendia desperdiçar. No inicio, pensei em descer para o pátio todas as manhãs e espreitar minha presa até atingir meu objetivo. Nem precisei de tanto. Na segunda manhã, no meio de um papo qualquer, rolou um beijo. Depois um segundo, um terceiro e, assim foi durante duas semanas.
No final da segunda semana tínhamos a mesma pergunta em mente: e agora? Como vai ser? Pensamos em contar tudo para Carla, porém logo descartamos tal hipótese. Rosane só ficaria mais uma semana. E depois? Como ficaria meu namoro e a amizade das duas primas. Decidimos que seria melhor não contarmos nada e pararmos por ali. Não deu certo. Na semana seguinte, toda vez que nos esbarrávamos sem que ninguém nos visse, era como se um de nós fosse uma moedinha e o outro um enorme ímã. Era muito magnetismo para pouco “metal”.
A última semana de provas da Carla acabou. A Rosane se foi. Meu namoro seguiu muito bem por mais alguns meses, mas logo terminamos. O que me deixou muito triste por um dia inteiro. Ah! Quase esqueci. Pouco depois chegou uma nova família no prédio. Desta vez vinda de São Paulo. Um casal e sua filha única, Adriana. Cabelos lisos, curtos e escuros. Olhos grandes e castanhos. Lindíssima! Bem, o resto vocês já devem imaginar.