quarta-feira, 6 de abril de 2016

É bom fazer o bem? Então por que o Bolsa-Família te faz mal?



Graças ao cálculo que passeia pelo meu rim direito, me causando bastante dor, me vi obrigado a passar uns dias em casa, o que, apesar de me afastar da minha rotina e do contato com os meus alunos, não foi de todo ruim. Tive ontem, após anos, a oportunidade de assistir a um programa que foi um marco das minhas tardes nos tempo em que vivia na Região Metropolitana do Rio, o SEM CENSURA, da antiga TVE, atual TV Brasil, com a mesma Leda Nagle que me acostumei a ver comandando debates quase sempre bem interessantes.

O tema do dia era “é bom fazer o bem”, no qual entre os convidados, Um monge budista, o diretor de uma ONG ligada ao trabalho voluntário, os cantores Lucas e Orelha (sim, eles sabem cantar), uma jovem gestora do grupo Médicos sem Fronteira e uma psiquiatra, discutiam como ajudar o próximo estimula as partes do cérebro relacionadas ao prazer e como cada um buscava, a sua maneira, ajudar aos mais necessitados. Todos os depoimentos foram muito interessantes, mas a “cereja do bolo” foi a jovem gestora de carreiras do grupo Médicos sem Fronteiras, Karina Teixeira, que falou do trabalho dos médicos da organização internacional que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias.

A medida que a moça descrevia o trabalho feito junto aos refugiados nigerianos e a população local no Chade, nação da África Subsaariana e também contava suas experiências em outros países onde a organização atua, comecei a pensar nos jovens e adultos que já viajaram inúmeras vezes à Europa, à América do Norte ou ao Extremo Oriente e realmente creem que conhecem o mundo. Acreditam ter condições de opinar sobre as opções de vida dos mais pobres, comparando as vidas dos mesmos aos seus históricos pessoais, assim condenando programas de assistência a estes pobres. Aquela moça, com pouco mais de 25 anos, conhece muito mais do mundo do que qualquer um destes senhores “viajados”.

Mas será que é necessário irmos tão longe para vermos este mundo real e cruel da falta de oportunidades? Claro que não. Vá à região amazônica, ao sertão do Nordeste, ao Vale do Jequitinhonha (Norte de MG) e você verá o quanto há gente precisando de ajuda dentro do nosso próprio país. Verá que, onde não há opções de trabalho, não há como aplicar a tese da meritocracia e, se a sugestão for sair de lá, migrar, teremos mais cidades ainda mais infladas e mais problemas urbanos para administrar. Então vamos pensar. Se você que vive confortavelmente na sua cidade do Sudeste (pouco importa sua condição, diante de tudo que eu vi e que me ensinou muito no Vale do Jequitinhonha, durante os anos 90), acha que faz o suficiente doando 40 reais por ano para o “Criança Esperança” e já renega o miserável que encontra diariamente no seu caminho, a quem cabe a assistência a estes necessitados? Obviamente que ao Estado.

Se não fica tão óbvio pra você, me deixe “desenhar”. No cap. I, do Titulo II da nossa constituição (direitos e deveres do cidadão) se fala, entre os nosso deveres, em “Proteger e educar, da melhor forma possível, os filhos e outras pessoas que dependem de nós”, e entre os direitos “Direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade; Direito à educação, saúde, moradia, trabalho e lazer; Proteção à maternidade e à infância". Se nos omitirmos do cumprimento desses deveres e direitos, passamos ao Estado, nosso representante maior, esta função. Afinal, pagamos impostos para que o estado, entre outras coisas, assuma responsabilidades que não queremos assumir individualmente. Sabemos também que, se o foco da iniciativa privada é o lucro, tais regiões serão completamente negligenciadas, em caso de privatização dos sistemas básicos como saúde, assistência social e educação, visto que não serão nem um pouco lucrativas.

Diante de toda essa situação e, em especial, diante de gastos públicos como a existência de frotas oficiais, auxílio-moradia, pagamento de passagens aéreas, etc. a membros dos três poderes, que recebem salários que seriam suficientes para pagar por tudo isso (mais de 30 mil reais ao mês para parlamentares e ministros do supremo – Fonte: Câmara dos deputados), diante das pensões vitalícias e integrais pagas às filhas solteiras, adultas e saudáveis de militares e membros do judiciário falecidos, diante dos milhões desviados em situações como a liberação emergencial de verbas às vésperas de grandes eventos, como foi na copa e agora nas Olimpíadas do Rio, o que faz com que a previsão de gastos seja amplamente superada, somando-se a isso as isenções de impostos para as grandes empresas, a sonegação por parte dos mais ricos e a falta de uma cobrança proporcional de IR, na qual quem tem maior renda pagasse mais do que a classe média, por que você vai implicar justamente com o Bolsa-família? Por que ela te traz revolta, quando deveria te dar prazer por ajudar a quem mais precisa, pelo menos nos casos em que a falta de oportunidades seja comprovada?

Eu sei porque. Você nunca se imagina numa situação em que venha a necessitar deste tipo de auxílio, mas certamente sonha com um dos privilégios citados. Se não para você, que seja para seus filhos.







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