A COBAIA
Esse foi um dos grandes micos de um personagem que ainda nem apareceu por aqui, O Cafajeste Universitário.
Um Cafajeste Universitário é como o adolescente, só que com mais experiência, mais estratégias e menos critérios de seleção. Aliás, minto! Só tem um critério, T.A.C.S. ou Teor Alcoólico na Corrente Sanguínea. Para ele não existe mulher feia ou desajeitada e sim uma dose a menos na cabeça. Porém, apesar disso, não posso reclamar das minhas conquistas e aventuras durante o tempo (muuuuito tempo) que passei na UERJ. Quer dizer...não muito. Porém, nem sempre a gente se dá totalmente bem. Às vezes rolam algumas roubadas. Uma delas envolve uma das garotas mais bonitas que eu já conheci naquele ambiente.
Numa daquelas festas de recepção aos calouros do curso de letras (cada curso tinha a sua) notei que uma das criaturas que eu mais observei e que nunca havia me dado a mínima atenção, apesar de ser amiga do meu melhor amigo, estava me olhando muito. Parecia, as vezes que estava me examinando. Cheguei, pasmem, a ficar encabulado com aquilo. Ela me olhava da cabeça aos pés, como se fizesse um exame de ressonância magnética à distância. Mas, como em qualquer bom cafajeste, a vergonha passou logo e fui conferir o que estava acontecendo com ela. Me aproximei e, na maior cara de pau, perguntei se ela estava mesmo me olhando da forma que eu acreditava. Eu realmente não estava conseguindo crer no que estava acontecendo. Talvez por isso tenha tocado no assunto de forma tão indiscreta.
- Eu não tinha reparado antes o quanto você é uma gracinha! Ela me disse.
- Hã?
- Por que a gente não sai daqui? Este lugar está muito barulhento.
Não, meus queridos. Vocês não entenderam mal. A mulher falava e agia comigo como se ela fosse a predadora e eu, a caça. Apesar de ter ficado sem graça de novo, não pensei duas vezes. Sei que a vovó dizia que "quando há esmola demais, até o santo desconfia", mas lembrei logo de um tio que dizia que "não se deixa sobra quando o prato é de filé, você nunca sabe quando vai comer aquilo de novo".
E lá fomos nós. Da pista para o lado de fora da festa. De lá para o estacionamento e, de lá, para o "cativeiro". Só que desta vez eu fui o sequestrado.
Pois foi no local escolhido para o nosso “treino de luta greco-romana” que o mico se manifestou. Quando já estávamos no meio do primeiro round percebi que a criatura começou a chorar. Começou com um chorinho baixinho e logo estava ela aos prantos e dizendo "sinto muito! não dá! não consigo!" Naquele momento todo o meu ânimo murchou, se é que vocês me entendem, e veio a minha cabeça aquela frase que a gente fala quando algo de muito errado está para acontecer. FUDEU!
Não deu outra. Ela começou a me explicar a situação:
- Lembra da Anne?
- Sim. O que tem a Anne?
A Anne era uma amiga lésbica, que havia decidido assumir sua opção sexual um ano antes e que tinha sido muito bem recebida por todos nós.
- Pois é, eu e a Anne temos um relacionamento secreto há mais de um ano. Agora estamos brigadas, mas tenho hoje a certeza de que é a ela que eu quero. Nunca deixei transparecer, pois minha família é muito preconceituosa e nunca aceitaria tal situação.
-sei!
O que me restou dizer? Bem que eu devia ter ouvido a vovó!
- Justamente por pressão, minha e da minha família, que eu resolvi fazer uma experiência. Por isso eu fui tão direta com você. Mas acabo de chegar a conclusão de que os meninos não fazem parte das minhas preferências.
A partir dali, é claro, ficamos conversando. Vesti a minha fantasia de psicólogo e logo fomos embora.
Na semana seguinte, é claro que toda a faculdade já sabia do ocorrido e os amigos diziam coisas do tipo:
- É cara, a coisa foi tão ruim que a garota até desistiu dos homens por sua causa!
O que fazer? Tive que aturar. Mas não posso deixar de dizer que esse mico me fez sentir um ratinho de laboratório. Com tanto cara mais bonito no mundo, por que a cobaia tinha que ser eu?