domingo, 2 de maio de 2010

Micos

O amigo gay

Essa é mais uma das histórias (micos) do cafajeste universitário.


Edward murphy (não o ator "Ed Murphy") era um engenheiro aeroespacial americano que ficou famoso, não por ter conquistado o espaço e sim por ter criado a máxima que deu origem a uma teoria, a "Lei de Murphy". Qualquer um é capaz de entender que, se algo tende a dar errado, fatalmente dará errado. Foi o que aconteceu comigo num final de ano em 1997. Mas essa história teve início dez anos antes.
Luiza era uma daquelas criaturinhas que sempre foram irresistíveis para mim. Baixinha, pele morena, olhos castanhos claros, cor de mel, cabelos escuros e cacheados e um corpo excepcionalmente proporcional. Morava num dos condomínios da minha rua e todos os dias passava em frente ao nosso prédio, indo e voltando da escola ou da academia que ficava em frente. tinha um andar firme e seguro, uma postura clássica. Não parecia o tipo de menina que se envolvia com figuras como eu. O que não quer dizer que eu não tentasse me aproximar dela. Mas apesar de todas as tentativas ela sempre resistiu. Com muita classe, ela sempre agradecia os elogios e se esquivava. Não tinha como não respeitar a atitude da Luiza. Apesar de pequenina, a mulher era superlativa. Era muita beleza, muita simpatia, muita classe, muita segurança. O tempo passou e a Luiza se confirmou como uma das maiores frustrações da minha adolescência.
Em dezembro de 1997, eu meus colegas de trabalho estávamos nos preparando para curtir nosso churrasco de fim de ano. Eu trabalhava numa empresa com sede na lapa, tradicional bairro boêmio do Rio de Janeiro e o plano era, após o churrasco, emendar a noite pelas várias opções do bairro carioca. No meio da festa, um de nossos colegas chamado Júlio, chegou acompanhado de uma amiga de sua faculdade. Eu estava no banheiro quando ouvi a gritaria da galera cobrando o seu atraso.
Ao sair do banheiro vi o Júlio andando entre os colegas, apresentando a amiga com aquele ar de quem exibe um troféu. Coisa que os caras mais competitivos adoram fazer. E o Júlio naquele momento parecia bastante competitivo. Como quase todos os cercavam resolvi buscar mais uma cerveja antes de cumprimentá-los. Só que antes fiz uma ressonância magnética completa do corpo da tal amiga, que naquele momento estava de costas. Reparei na silhueta da baixinha de cabelos curtos que "indo" parecia linda. Só esperei para ver com ela era "vindo". A essa altura, vocês já devem estar imaginado: "era a Luiza". Pois se pensaram nisso estão corretíssimos. Era ela. Agora de cabelos curtos. Foi impressionante como ela tinha conseguido ficar mais bonita apesar de passados dez anos. Foi isso ou as cervejas que tomei estavam tornando todas as mulheres mais bonitas para mim. Mas eu não estava nem aí para isso. Afinal, era ela. Porém, a realidade logo me deu um tapa. Ela estava acompanhada do meu colega de trabalho e ainda era a pessoa que mais tinha resistido as minhas investidas até então.
Concluí que deveria respeitar as duas condições, a do passado e a do presente. Cumprimentei-a e conversamos rapidamente. Não quis alimentar assunto com a acompanhante do meu colega. Preferi manter vivo o pacto informal que os caras da minha geração tinham de respeitar o território alheio, mesmo que não houvesse algo aparente entre eles.
Não demorou muito para que a Luiza se aproximasse de mim e começamos a conversar. Em meio a conversa algo mais forte do que eu tomou conta das minhas funções verbais e eu perguntei:
- Você e o Júlio estão juntos?
- Como assim? Perguntou com o mesmo sorriso lindo com o qual me dispensava dez anos antes. Foi quando me dei conta de que estava falando demais.
- Deixa pra lá, me desculpe! Falei demais.
Ela deu uma gargalhada. Na verdade havia entendido tudo que eu quis dizer.
- Você não sabia? Nunca notou?
- Notei, o quê?
- Que o Júlio é gay?
A minha cara de babaca era identificável a quilômetros de distância. Apesar do jeito manso de falar, o Júlio não era de dar na pinta. Como eu nunca fui de me importar com as escolhas das pessoas, isso não fazia nenhuma diferença para mim. Mas o melhor de tudo foi o alívio que senti ao perceber ali estava a oportunidade de exorcizar um fantasma do meu passado.
Não precisei investir muito. Logo após a constatação de que eu tinha feito papel de babaca a Luiza me deu um abraço bem forte, se afastou um pouco, olhou nos meus olhos e me beijou. Naquele momento a minha cabeça parecia a praia de Copacabana na virada do ano. Eu me senti cercado de fogos explodindo por todos os lados.
- Eu fui um idiota, não é? Perguntei meio envergonhado.
- Idiota fui eu de ter me supervalorizado e te dispensar tanto. Eu te achava uma gracinha, mas ficava preocupada pois você não carregava uma boa fama na época.
Mais fogos. Muitos fogos!
Nem preciso dizer que passamos aquela noite juntos. Putz! Já disse! Foi fora do normal. O que faltava de altura naquela pessoa, sobrava em disposição, elasticidade e criatividade. Mas isso agora não vem ao caso.
Os momentos seguintes foram reservados às conversas sobre o que havíamos feito ao longo dos dez anos que se passaram. Foi quando a coisa começou a complicar. Ou você achou que isso era uma história de amor?
Luiza tinha ido morar com a pai no Rio Grande do Sul e lá conheceu um cara, com quem se casou. O homem, Armando, era agente da polícia federal e eles estavam em um processo, ainda não oficializado, de separação. Daqueles em que o casal vai e volta. Se dizem separados, mas de vez em quando se encontram pra conversar e daí vocês já sabem. Ela estava morando desde 1995 em São Gonçalo, em um apartamento que ele montou e no qual ele ficava quando tirava folgas mais longas e vinha para o Rio. Luiza trabalhava em uma agência de publicidade e resolveu retomar os estudos. Fazia direito na PUC, onde conheceu o Júlio, que se tornou seu melhor amigo e confidente. Assim que ela acabou de me contar a história do ex/atual (sei lá!) marido, comecei a pensar como seria uma pena ter que me afastar dela tão rápido. Com toda a certeza, eu me afastaria dela pois, convenhamos, quem é louco de se envolver com uma mulher dessas?
Eu já estava desconversando, pedindo a conta pra irmos embora. Pensei até em deixá-la no terminal de ônibus, com medo de levá-la para casa e dar o azar de encontrar com o federal gaúcho. Mas isso seria uma indelicadeza, o que não era do meu estilo. Daí a levei até o prédio onde ela morava. Ainda no carro ela me chamou para entrar e tomarmos o café da manhã juntos. Imediatamente eu disse não. Falei que tinha um compromisso qualquer, mesmo sendo um sábado. Mas não deu certo. A criatura me olhou nos olhos, me beijou, olhou de novo e pediu com aquele jeitinho que só as mulheres mais irresistíveis sabem fazer e que encantam qualquer homem. Me prometeu uma surpresa depois do café. Daí eu pensei, será que alguém seria tão azarado ao ponto de encontrar com o tal ex no apartamento logo na primeira oportunidade? Improvável! Então fomos para o apartamento.
Subimos pelo elevador. Luiza me olhou com aquele lindo sorriso no rosto durante toda a subida. Ao chegarmos ao oitavo andar abri a porta e dei espaço para que ela passasse. Ela abriu a porta e sorriu para mim novamente. Era como se seus olhos quisessem me dizer que algo maravilhoso estava por acontecer. Entramos, nos abraçamos, nos beijamos, ela tirou a minha camisa e jogou no sofá. Depois disse que precisava ir ao banheiro e se dirigiu para o quarto. Eu permaneci na sala, reparando detalhes da decoração, como um belo quadro que mostrava as ondas do mar batendo sobre as pedras em uma praia. Fui andando até a janela quando ouvi o barulho de chaves e da porta da sala se abrindo. Foi quando olhei para o chão, num canto ao lado do sofá e vi duas bolsas de viagem. Pronto! Toda situação se desenhou imediatamente nessa fábrica de conspirações que eu chamo de meu cérebro. O gaúcho estava na cidade. Eu tinha que pensar rápido. Precisava de um bom motivo para explicar a minha presença naquela sala. Quando a porta se abriu, vi entrar um homem branco, alto, aparentando uns trinta a trita e cinco anos e bastante forte. Não havia dúvidas. Nem tempo. Respirei fundo, estiquei a coluna, empinei o bumbum, fiz aquele olhar de ursinho carinhoso surpreso e, com uma voz bem macia disse:
- Oi!
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, até por que ficou me olhando com cara de espanto, caminhei com um leve rebolado em sua direção, estendi meu braço e dei minha mão, com o pulso meio frouxo, para um aperto bem macio. Daí, comecei a falar alto e rápido como uma metralhadora, para não dar tempo dele dizer nada até a volta da Luiza.
- Você deve ser o Armando, o famoso marido da Lu. Prazer, eu me chamo Júlio. A Lu vive falando de você, sabia? Nós duas somos as melhores amigas. Senta aí, ela foi lá dentro. Chegou louca pra fazer xixi. Você é um homem de sorte, ela é mesmo ma-ra-vi-lho-sa! Blá, blá, blá.
Ela então entrou na sala já no clima da encenação. Havia ouvido tudo do quarto. Já veio pelo corredor do apartamento com uma camiseta na mão falando:
- “Amiga”! Achei essa camiseta branca que deve dar em você.
Uma observação: Apesar de me encantar pelos atributos físicos femininos, poucas coisas me deixavam tão excitado quanto a rapidez de raciocínio de certas mulheres. Quando vi o quanto a Luiza entrou no clima e improvisou diante daquela situação tão perigosa, tive vontade de esquecer essa coisa de segurança e me envolver mais ainda com aquela louca.
Após fingir surpresa e uma alegria contida com a visita do ex, Luiza e eu começamos a encenar uma despedida. Dissemos que eu havia sujado a minha camisa com a graxa da porta do elevador e nos despedimos com aqueles beijinhos de cumadre. Mas as teorias de Edward Murphy se confirmavam cada vez mais. O gaúcho segurou no meu braço com aquela mão enorme e me convidou para almoçarmos juntos.
- Quero saber um pouco mais da vida da Luiza aqui no Rio. Além disso, ela já me falou tanto de você que eu gostaria de conhecer melhor o cara que está “roubando” a minha mulher de mim.
- Com isso querido, você não precisa se preocupar. É muuuito mais fácil eu tentar roubar você dela, isso sim! Aliás Lu, onde foi que você achou esse homem todo menina?
Com essa piadinha eu tinha acabado de jogar quase todas as minhas fichas. O pior é que nem imitando gay, com a morte a minha espreita, eu consegui deixar de ser debochado.
Mas meu azar não foi completo. Parecia que o cara tinha gostado de mim. Insistiu para que eu ficasse. Disse até que ia fazer um arroz de carreteiro para mim e acender a churrasqueira na varanda. Também, fui fazer logo o tipo “bichinha engraçadinha”. O cara acabou me achando divertido. Isso ou todas aquelas “lendas” sobre as preferências sexuais dos gaúchos estavam certas. Só sei que tive que usar meu talento teatral e de comediante ao máximo. Não estava sequer preocupado com o que alguém pudesse dizer caso soubesse daquilo. Era minha vida que estava em jogo. Mas na verdade, a partir do momento em que percebi que o Armando havia caído no golpe, senti uma agradável injeção de adrenalina. Como se eu estivesse me jogando de paraquedas de um avião. Comecei a me divertir com aquilo. O pior é que notei que a Luiza também. Isso sem contar que eu adoro Churrasco e arroz de carreteiro.
Enfim, o que parecia um treinamento para o inferno se tornou uma das tardes mais divertidas da minha juventude. Cada vez que o Armando ia ao banheiro devolver a água ingerida com as cervejas que tomou, eu e a Luiza aproveitávamos para dar uns amassos na sala. Sem contar com o que fizemos no sofá quando ele desceu para comprar mais cervejas no mercado próximo ao prédio. Depois daquela tarde nunca mais vi o Armando (graças a Deus). O mesmo não posso dizer da Luiza. Toda aquela sagacidade me inspirou e continuamos saindo durante alguns meses. Até o Armando receber uma promoção e ser transferido para Fortaleza. Com isso ele propôs a Luiza que os dois esquecessem o passado e voltassem a estaca zero. O que, para meu espanto, ela aceitou. Não nos vimos mais desde que a deixei no aeroporto uma semana após a partida do Armando. Semana essa que representou a despedida mais longa e maravilhosa que eu já havia vivido até então. No fim, Murphy foi generoso comigo. O certo é que até aquele dia eu nunca imaginei que as minhas aulas de teatro poderiam ser tão úteis. Até hoje eu me sinto merecedor de um Oscar por isso.