Divirta-se!
Uma
noite, dois tapas
O que faz de um cara um cafajeste? Que
qualidades o definem? O que se deve aprender para se tornar um? Certa vez,
tentei enumerar tais características e concluí que elas não caberiam em uma
lista. Porém, certamente, a capacidade de adaptação as diversas situações e
surpresas é fundamental. É aquilo que chamamos
de jogo de cintura. Me lembro bem de uma situação em que isso foi importante,
porém não foi suficiente.
Um bom cafajeste deve ser capaz de se
relacionar com várias garotas e não se prender a nenhuma delas. Tudo isso
tentado não ferir os sentimentos de ninguém. Mas isso nem sempre é possível. As
vezes o senso de oportunidade de um cafajeste é maior que a sua razão. Quando
isso aconteceu comigo, acabei ferindo a uma regra básica da nossa irmandade:
nunca ficar com duas pessoas num mesmo lugar.
Hoje em dia, a gente vê caras ficando
com várias meninas numa noite (ou pelo menos dizendo que ficaram), mas de fato,
não ficam com nenhuma, apenas trocam uns beijinhos e pronto. Daí partem para
outra. Na minha turma isso era conhecido como "noite de tiroteio".
Porém essa não era a nossa prática comum. Nós acreditávamos que uma luta só era
válida quando havia "combate corpo-a-corpo". por isso éramos adeptos da conquista. Eram os
jogos de olhares, palavras, toques, que faziam tudo aquilo valer a pena. E
nenhuma conquista era completa se não representasse mais um nome e um telefone
na agenda. As agendas eram importantes pois representavam uma espécie de sala
de troféus e também uma fonte de recursos para os dias de seca. Por isso eu
evitava ferir os sentimentos de alguém. Para não esgotar meus "recursos
naturais". Como vocês podem notar minha noção de equilibrio ecológico é
antiga. Mas vamos aos fatos.
Certa vez, em 1987, surgiu a
oportunidade de conhecer a irmã da Andressa, namorada do meu melhor amigo da vez,
o Jader. Seria um encontro às escuras mas ele garantia que eu não iria me
arrepender. Eu só estava preocupado por saber que a namorada dele só podia
chegar mais tarde em casa se estivesse acompanhada pela irmã e ele pretendia
deixar a Andressa em casa "bem tarde". Era esse desespero do Jader em
arrumar uma distração para a cunhada que me fazia acreditar que aquilo seria
uma roubada. Porém, o que não se faz pelos amigos?
O plano do Jader era bem elaborado. Nós
iriamos a uma casa noturna na Região Oceânica de Niterói Eu distrairia a
cunhada dele enquanto o casal fugiria para um "estabelecimento hoteleiro
de alta rotatividade" próximo de lá. No fim da noite nos encontraríamos e levaríamos as garotas para casa. Perfeito! Para a minha sorte a cunhada do
Jader era bem bonitinha. Parecia uma cópia menos elaborada da Andressa, mas
mesmo assim era bem atraente. Não era mais bonita do que a irmã mais nova, mas
infinitamente mais charmosa. Se chamava
Amanda. Já no carro do Jader o jogo foi iniciando. Ele ao volante, Andressa ao
lado, eu e Amanda no banco de trás. Tivemos uma conversa coletiva sobre namoro
e outros assuntos. Foi bem divertido. Fiz questão de encontrar a forma certa de
fazer a Amanda sorrir. Fazer sorrir era fundamental em meu processo de
conquista. As pesquisas que eu lia na época apontavam que as mulheres eram mais
abertas aos caras que as divertiam. Por várias vezes durante o caminho tirei um
lindo sorriso do rosto daquela criatura. Antes de descermos do carro já estava
rolando o primeiro beijo. Aquilo era o indicativo de que aquela noite poderia
ser completa. Quem sabe não iriamos todos ao tal estabelecimento hoteleiro de
alta rotatividade?
Chegamos na casa noturna. Era um lugar
bem amplo, com dois pisos. Na parte de baixo, um palco, a pista de dança e um
bar com mesas ao fundo. No andar de cima, uma grande sacada voltada para o
palco e uma área externa com um bar, um espaço com meia luz e vários sofás.
Estava nítido que aquela era a área de pegação da casa. Depois de conhecermos
todos os ambientes resolvemos ficar numa das mesas do andar de baixo. Eu e
Jader estávamos tomando chopp e as meninas uns dinks meio exóticos. De repente
recebemos a informação de que a máquina de chopp pifou e teríamos que ir ao bar
de cima buscar a bebida. Como na noite tudo é festa, não nos importamos e eu me
ofereci para ser o primeiro a subir para buscar o chopp. Foi quando o problema
começou.
Assim que me debrucei no balcão do bar,
senti duas mãos me taparem os olhos. Não conseguia ver nada mas reconhecia o
perfume. Porém eu conhecia pelo menos cinco garotas que o usavam regularmente e
não poderia me arriscar a falar o nome errado e me queimar com alguém. O que
dizer então? Resolvi usar aquele elemento a meu favor:
- Quem é
eu não me arrisco a dizer mas o perfume é tão bom que você pode ficar aí o
tempo que quiser - Foi o que eu disse.
Quando as mãos foram retiradas da
frente dos meus olhos, me virei e vi Laurinha, a mais assídua frequentadora
das minhas festas para duas pessoas. (Vocês entenderam, né?) A garota já era
quase uma namorada, tamanha a frequência com a qual a gente ficava. Só não o
era porque eu teria que terminar com a minha namorada de verdade para isso. Mas
Laurinha tinha todas as características ideais para uma boa namorada de
cafajeste, era linda porém pouco inteligente. Ela estava com um grupo de amigos
e a irmã, Luciana, que não gostava de mim pois certa vez eu havia vacilado bem
feio com ela. Pois é, nem sempre era possível não ferir sentimentos. Mas isso
foi no início da minha carreira de cafajestagens.
Pois lá estava ela, linda, solícita
e irresistível. Nem pude dizer “oi” direito e ela já veio me beijando. Pensei em
esticar o corpo e afastar a boca para evitar o beijo. Mas quem disse que eu
consegui? E quem disse que eu queria evitar? Pronto, estava armado o circo. Disse
a ela que eu estava com o meu tio, a esposa e uns primos numa mesa na parte de
baixo da casa. Foi o que eu consegui pensar para evitar que ela quisesse juntar
os grupos ou descer comigo. O que por incrível que pareça deu certo. Eu já disse
que ela não era muito esperta? A partir daí começaria uma verdadeira sessão de
ginástica. Um sobe e desce sempre justificado pelas frases “vou buscar mais um
chopp” e “me deixa ir lá em baixo dar uma atenção ao pessoal”.
Eu estava começando a achar aquilo
divertido. Procurei o Jader para avisar sobre o que estava acontecendo mas,
segundo a Amanda, ele tinha ido acompanhar a Andressa ao banheiro, no andar de cima. Pensei
logo, “ferrou tudo! Eles saíram e me deixaram a pé no meio dessa roubada.” Imaginei
que a melhor coisa a fazer seria sair dali, esperar pelo casal fujão na praia
em frente ao local. Convidei a Amanda para irmos até a praia e ela topou. Disse
a ela que iria avisar a irmã e ao cunhado e que em seguida iríamos sair. A beijei e me virei
na direção da escada quando dei de frente com a Laurinha. O olhar da garota era
de ódio. Antes que eu terminasse de dizer “oi”, sua mão já passava em alta
velocidade atingindo em cheio a minha
face esquerda.
- Bem que
a minha irmã me avisou! - Disse ela.
O andar de baixo parou e todos olharam
para nós. Amanda partiu em minha defesa.
- O que é isso, garota louca? Por que você bateu
nele?
- Queridinha
- respondeu Laurinha - ele está aqui no maior amor com você mas pergunta qual é
a boca que ele beijou a cada vez que subia para o bar.
Me virei para Amanda, que me
perguntou se aquilo era verdade. Não disse nada mas minha expressão facial foi
tão clara quanto um dia de sol forte na praia em frente a casa noturna. Mais uma
vez senti o impacto na face esquerda.Dessa vez doeu mais pois ainda estava
sentindo a dor do primeiro tapa. Até pensei “será que não dava pra variar um
pouco? Uma delas não podia ser canhota?”
Em seguida vi Jader e Andressa
chegando. Haviam ido mesmo ao banheiro e assistiram tudo. Daí a ficha caiu. Eu havia
estragado a noite de todos. Jader e Andressa não poderiam mais escapar. Teriam que
levar Amanda para casa e assim o fizeram. Eu não tive nem cara de pedir carona
a eles e Jader sequer se ofereceu para me me levar em casa. Laurinha subiu para
ficar com os amigos a irmã, que me olhava da sacada enquanto a cabeça se movia
de um lado para o outro em sinal de desaprovação. Os seguranças, que a essa
altura já me cercavam, me olhavam como se perguntassem se eu sairia sozinho ou
se seria necessário me expulsar. Preferi a opção número um.
Dali para frente só me restava ir
para casa. Correr para pegar o último ônibus até o Centro da cidade e torcer
para passar um outro, que me levasse até minha
casa. Pus a mão no rosto, ainda doendo. Pensei
no mico que paguei e no quanto decepcionei meu amigo. Porém, não consegui segurar
o sorriso ao pensar na loucura que fiz. Afinal, aquela não havia sido uma noite
de derrota total. Foi divertido! Eu havia aprendido algo importante para um bom
cafajeste. Que se você quiser manter a sua agenda cheia não deve desrespeitar a
garota que está com você, enquanto ela está com você. Que as garotas até
entendem um cafajeste, mas não perdoam um mau caráter.
Depois disso a Amanda nunca mais falou
comigo. Atravessava a rua para não me olhar, se fosse necessário. Já a
Laurinha...bem, eu já havia dito que ela não era muito esperta?
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