quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Mais uma sobre a democracia racial brasileira



Até agora, todas as pessoas que disseram que é bobagem alguém se sentir incomodado com a foto do menino fantasiado de macaco, ou não são negras ou não se consideram como tal. Assim é fácil, né gente?
Eu realmente acredito na inocência do pai que, ao crer no mito da democracia racial, focou a fantasia da família na relação de amizade dos personagens do desenho animado. Acredito mesmo.

Porém, como pai, talvez tenha faltado um exercício de futurologia, ao não olhar "para frente" e imaginar que seu filho adotivo, que provavelmente estudará numa escola privada onde há predominância de não-negros, terá que aprender a conviver com o racismo velado nas piadinhas para se sentir incluído, em especial durante a mais cruel fase da nossa vida social, a pré-adolescência (nós que damos aulas em turmas de 6º e 7º ano sabemos bem o que é bullying).

Estudei em escolas de elite, fui um dos raros jovens negros em várias das minhas turmas e sei exatamente como isso funciona. Tive que dar aquele sorrisinho "amarelo" ao final de cada piadinha e fingir que não ligava por receio de ser rejeitado. Por ser filho de negro com branca o convívio entre as diferentes tonalidades de pele era uma constante em minha casa e, talvez por isso, eu tenha passado bem por essa fase, apesar de nunca me esquecer dela.

Me senti duplamente incomodado com a imagem, como cidadão negro (como me considero, apesar de tentarem me rotular de coisas que vão desde o "moreninho" até o "marrom bombom") e como pai. Espero sinceramente que este jovem pai, que já afirmou estar esperando a autorização para uma segunda adoção, tenha enxergado que não pode criar seus filhos negros como se fossem brancos, muito menos crer que o racismo vá se desfazer em algumas poucas gerações. Espero que ele estimule seus filhos a enfrentarem de forma firme as barreiras que irão se interpor aos seus objetivos e que os ensine a ter orgulho deles mesmos, dos seus pais e do seu povo.

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