sexta-feira, 29 de abril de 2016
Vale a reciprocidade?
-"Se foi torturado, é porque alguma coisa fez para merecer..."
- "Na ditadura só vagabundos e terroristas foram presos."
- "Quem era cidadão de bem não precisava temer nada naquela época."
-"Todos que foram presos eram bandidos ou terroristas"
Estas e outras frases, que revelam uma escalada do ódio desmedido e irracional, tem sido repetidas por adultos e jovens. Em especial a partir da ascensão da polarização política que divide nossos compatriotas.
Porém, diante de um momento de crise econômica GLOBAL, que inevitavelmente nos atinge, mais a possibilidade de desmonte da estrutura de proteção social que nossos possíveis futuros governantes querem promover, com o fim dos direitos trabalhistas, se hoje já temos entre os que repetem os discursos acima muitos desempregados, em breve serão mais ainda ou na rua ou trabalhando até pela metade dos salários que recebem hoje.
Aí eu te pergunto:
E se eu reduzisse as coisas a essa lógica de condição de opressão "merecida" pelo oprimido, e repetisse, por outro ângulo, as mesmas frases acima, como você se sentiria? Seria mais ou menos assim:
- "Se foi demitido, é porque alguma coisa fez para merecer."
- "Só incompetentes e preguiçosos estão desempregados."
- "Quem é trabalhador, esforçado e competente está empregado. O resto não quer nada."
- "Todos que foram demitidos eram preguiçosos ou incompetentes."
Então, como você se sentiria?
Vamos pensar?
domingo, 24 de abril de 2016
Doutrinação em sala de aula? COMO ASSIM?
Projeto de lei pretende condenar a doutrinação realizada por professores em sala de aula. Mas que doutrinação é essa? Onde ela realmente acontece? Por que tanto medo do que o professor pode dizer?
quarta-feira, 6 de abril de 2016
É bom fazer o bem? Então por que o Bolsa-Família te faz mal?
Graças ao cálculo que passeia pelo meu rim direito, me causando bastante dor, me vi obrigado a passar uns dias em casa, o que, apesar de me afastar da minha rotina e do contato com os meus alunos, não foi de todo ruim. Tive ontem, após anos, a oportunidade de assistir a um programa que foi um marco das minhas tardes nos tempo em que vivia na Região Metropolitana do Rio, o SEM CENSURA, da antiga TVE, atual TV Brasil, com a mesma Leda Nagle que me acostumei a ver comandando debates quase sempre bem interessantes.
O tema do dia era “é bom fazer o bem”, no qual entre os convidados, Um monge budista, o diretor de uma ONG ligada ao trabalho voluntário, os cantores Lucas e Orelha (sim, eles sabem cantar), uma jovem gestora do grupo Médicos sem Fronteira e uma psiquiatra, discutiam como ajudar o próximo estimula as partes do cérebro relacionadas ao prazer e como cada um buscava, a sua maneira, ajudar aos mais necessitados. Todos os depoimentos foram muito interessantes, mas a “cereja do bolo” foi a jovem gestora de carreiras do grupo Médicos sem Fronteiras, Karina Teixeira, que falou do trabalho dos médicos da organização internacional que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias.
A medida que a moça descrevia o trabalho feito junto aos refugiados nigerianos e a população local no Chade, nação da África Subsaariana e também contava suas experiências em outros países onde a organização atua, comecei a pensar nos jovens e adultos que já viajaram inúmeras vezes à Europa, à América do Norte ou ao Extremo Oriente e realmente creem que conhecem o mundo. Acreditam ter condições de opinar sobre as opções de vida dos mais pobres, comparando as vidas dos mesmos aos seus históricos pessoais, assim condenando programas de assistência a estes pobres. Aquela moça, com pouco mais de 25 anos, conhece muito mais do mundo do que qualquer um destes senhores “viajados”.
Mas será que é necessário irmos tão longe para vermos este mundo real e cruel da falta de oportunidades? Claro que não. Vá à região amazônica, ao sertão do Nordeste, ao Vale do Jequitinhonha (Norte de MG) e você verá o quanto há gente precisando de ajuda dentro do nosso próprio país. Verá que, onde não há opções de trabalho, não há como aplicar a tese da meritocracia e, se a sugestão for sair de lá, migrar, teremos mais cidades ainda mais infladas e mais problemas urbanos para administrar. Então vamos pensar. Se você que vive confortavelmente na sua cidade do Sudeste (pouco importa sua condição, diante de tudo que eu vi e que me ensinou muito no Vale do Jequitinhonha, durante os anos 90), acha que faz o suficiente doando 40 reais por ano para o “Criança Esperança” e já renega o miserável que encontra diariamente no seu caminho, a quem cabe a assistência a estes necessitados? Obviamente que ao Estado.
Se não fica tão óbvio pra você, me deixe “desenhar”. No cap. I, do Titulo II da nossa constituição (direitos e deveres do cidadão) se fala, entre os nosso deveres, em “Proteger e educar, da melhor forma possível, os filhos e outras pessoas que dependem de nós”, e entre os direitos “Direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade; Direito à educação, saúde, moradia, trabalho e lazer; Proteção à maternidade e à infância". Se nos omitirmos do cumprimento desses deveres e direitos, passamos ao Estado, nosso representante maior, esta função. Afinal, pagamos impostos para que o estado, entre outras coisas, assuma responsabilidades que não queremos assumir individualmente. Sabemos também que, se o foco da iniciativa privada é o lucro, tais regiões serão completamente negligenciadas, em caso de privatização dos sistemas básicos como saúde, assistência social e educação, visto que não serão nem um pouco lucrativas.
Diante de toda essa situação e, em especial, diante de gastos públicos como a existência de frotas oficiais, auxílio-moradia, pagamento de passagens aéreas, etc. a membros dos três poderes, que recebem salários que seriam suficientes para pagar por tudo isso (mais de 30 mil reais ao mês para parlamentares e ministros do supremo – Fonte: Câmara dos deputados), diante das pensões vitalícias e integrais pagas às filhas solteiras, adultas e saudáveis de militares e membros do judiciário falecidos, diante dos milhões desviados em situações como a liberação emergencial de verbas às vésperas de grandes eventos, como foi na copa e agora nas Olimpíadas do Rio, o que faz com que a previsão de gastos seja amplamente superada, somando-se a isso as isenções de impostos para as grandes empresas, a sonegação por parte dos mais ricos e a falta de uma cobrança proporcional de IR, na qual quem tem maior renda pagasse mais do que a classe média, por que você vai implicar justamente com o Bolsa-família? Por que ela te traz revolta, quando deveria te dar prazer por ajudar a quem mais precisa, pelo menos nos casos em que a falta de oportunidades seja comprovada?
Eu sei porque. Você nunca se imagina numa situação em que venha a necessitar deste tipo de auxílio, mas certamente sonha com um dos privilégios citados. Se não para você, que seja para seus filhos.
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