PAUSA PARA O CARNAVAL

Niterói, década de 80. Uma das situações mais comuns entre os garotos é o pedido de tempo (leia-se: “vou sair, namorar, aproveitar e depois volto. Esteja pronta!”). As justificativas são as mais diversas: “preciso me dedicar mais aos estudos, tenho que passar no vestibular”; “entenda, não é com você, é comigo”; “não estou em uma boa fase”; “preciso de espaço"; "nosso relacionamento me sufoca"; "precisamos abrir novos horizontes, conhecer outras pessoas”.
Bem, na verdade estas e outras frases não passam de formas delicadas, ou não, de dizer sempre a mesma coisa: “Tô de saco cheio de ficar preso. O mundo está cheio de mulheres livres e eu estou a fim de galinhar um pouquinho”. O êxito desse artifício vai depender da reação de cada namorada a tal atitude nem sempre inesperada. Lembro-me de ter dito frases como estas (geralmente ficava com aquela do “não é com você”...) umas três vezes. Talvez quatro... Tá bom! Várias.
Algumas das reações formam realmente inesperadas, outras previsíveis. Uma vez, quando tentei dar um tempo, pela segunda ou terceira vez, num relacionamento de cerca de dois anos, tive uma grande e merecida surpresa.
Tudo começou às vésperas do Carnaval de 1987 (quase sempre os pedidos de tempo acontecem às vésperas de grandes festas ou férias). Minha namorada, a Leila, era uma menina um tanto controlada pela mãe e raramente tinha permissão para sair comigo, o que eu adorava. Viajar então, nem pensar! Era a segunda vez em minha vida que eu iria passar um Carnaval longe da minha família, o que significava liberdade total e, desta vez, numa das regiões mais badaladas do Estado do Rio nesse período do ano, a Região dos Lagos. Iríamos ficar na casa que o pai de um amigo meu alugara com o cunhado. Todos na família eram muito bacanas e liberais. Nos emprestavam os carros e, como um deles era dono de um bar, o que não faltava era cerveja.
Vocês devem estar pensando: “o canalha, pensando em se divertir sem nenhum sinal de consciência pesada, deu o fora na namorada”. Pois foi exatamente o que eu fiz. Fui a casa da Leila e contei minha história. Disse que estava preocupado com nosso futuro e que não sabia se nosso namoro sobreviveria a um segundo Carnaval., que não era nada “com ela” e sim comigo, etc. então finalmente ela teve uma reação inesperada. Da forma mais passiva que vocês possam imaginar, ela simplesmente aceitou. É lógico que eu estranhei tanta passividade mas, como se tratava da preparação para a maior festa de nosso calendário, deixei para lá.
O Carnaval foi maravilhoso. Conheci umas garotas muito loucas e, de um grupo de quatro, fiquei com três. Diversão garantida. O pai do meu amigo levou cerca de trinta caixas de cerveja e, além disso, tinha acabado de comprar um carro novo (um Del Rey, carro de luxo naquela época) que ficou com a gente durante toda a semana. Resumo: formávamos um verdadeiro bando de “Playboys”. Mas voltemos ao nosso tema central.
Quando voltei para casa, preferi não ir diretamente a tentativa (certa) de reconciliação. Preferi fazer os tradicionais contatos pós-carnavalescos com as garotas que conheci na Região dos Lagos. Só apareci na casa de minha namorada (ou seria ex?) duas semanas depois. Foi quando me surpreendi com um certo carro (um FIAT modelo UNO, quase um símbolo de Status entre os pós-adolescentes da época) estacionado na frente da casa dela. Pensei: algum mané que não conseguiu encontrar vaga na rua. Mas a rua estava quase vazia, a exceção do tal Uno, uma Kombi velha e o meu carro, ou melhor, o carro do meu pai, que estava comigo. É lógico que naquele momento minha genial fábrica de teorias pensou no pior: ela arrumou outro! Desgraçada, piranha, cachorra, vagabunda, etc. Era tudo que eu conseguia pensar naquele momento. Tudo bem que hoje sei que mereci aquilo mas, naquela hora tudo que eu queria era matar aquela infeliz. Respirei fundo e dei meia volta. Fui para casa tramando o que diria a ela quando tivesse chance.
No dia seguinte voltei a casa dela. Estava certo de que, com um pouquinho de charme, usando as palavras certas (e eu conhecia todas) e talvez, se fosse necessário, apelando para a mais extrema estratégia que um cara pode utilizar no processo de convencimento: o choro, conseguiria de volta o que era meu (é isso mesmo! A gente aos 18 anos acredita mesmo que é possível ser dono de alguém). É bom frisar que naquele tempo eu, como todo pós-adolescente, era o cara mais pretensioso do planeta. Achava-me o máximo. Acreditava que aquela garota que, por infinitas vezes me jurou amor eterno, cairia facilmente na minha lábia de vilão arrependido. Não caiu. Então, apelei para o mais previsível, disse que ela não poderia me trair (?) daquela forma. Estávamos separados apenas na teoria. Como no carnaval anterior.
O que eu não sabia era que Leila tinha aprendido muito com o carnaval anterior. Coisas como: se houver um novo corte no relacionamento que seja para valer, "à Vera"! Foi aí que eu parti para a apelação. Como havia perdido meu território por definitivo, entrei na fase da difamação. Saí pelo bairro contando a todos os meus amigos o quanta aquela garota havia sido desleal, infiel, cruel, insana, leviana. E eu, pobre coitado, corno.
É claro que alguma lição eu haveria de tirar de tudo isso. Mas ainda não seria agora a minha redenção. Na verdade esta é mais uma daquelas situações em que só hoje consigo perceber o quanto eu era igual a todos os outros caras da minha idade. Presunçoso, arrogante, pedante, prepotente, convencido, pretensioso... Agora só me restava uma saída: promover a outra, uma garota com que ficava a cerca de seis meses, ao cargo de namorada oficial. Fazer o quê?
2 comentários:
Sérgio,
vc era um mala! Ecaaa, graças a Deus só tive contato com o cara chefe de família, e respeitado...
Bjocas, e continua que ta otemo!
já ate favoritei!
Esperei pra que alguém se manifestasse em dizer que cafajeste é apelido, aliás... é elogio! Porém, com um charme que é só seu, não é não, amigo? Por essa razão acabou "passando a mão", desde as mais gatas às nem tanto... nem falo nada! rsrsrsrs
Estou acompanhando suas memórias e, tenho que confessar: são primorosas suas colocações. Hilário!
Até a próxima postagem. Bjo enorme.
Adriana Lyra
Postar um comentário