quinta-feira, 2 de julho de 2009

O Cafajeste Adolescente 5

O Desafio

Ao longo de minha adolescência tive a oportunidade de praticar minhas canalhices em três diferentes escolas de Niterói. O tradicional Colégio Liceu Nilo Peçanha foi uma delas.
O Liceu, como chamávamos, era uma escola centenária, foi a primeira e única escola pública em que estudei. Tudo por lá era muito tradicional, a estrutura era grande e imponente. era a maior escola pública da cidade, tinha mais de mil e quinhentos alunos, em três turnos e uma equipe de professores enorme.Todo o ambiente emanava disciplina e seriedade. Porém nada disso nos impedia de aprontar horrores naquela escola.
O meu turno era o primeiro, o da manhã . Na parte da tarde, após as aulas , rolavam algumas "atividades extra-curriculares". principalmente nas quartas, quando rolava a turma de teatro e nas sextas-feiras, quando formávamos "grupos de estudo" e faziamos trabalhos em equipe a beira da piscina na casa de um amigo, ou estudávamos a ação do calor sobre os corpos no interior da sauna. Mais didático, impossível.
Havia duas aulas que eu adorava, as de teatro,das quais falarei num outro momento e as de física. Isso mesmo, física. É claro que um jovem cafajeste, rebelde e indisciplinado como eu não seria um grande admirador da ciência. O que me atraía para essas aulas era a Beatriz, ou simplesmente Bia, a professora de física.
Bia parecia ser bastante jovem para uma professora de 2º grau. Nunca soube ao certo a sua idade mas aparentava ter 20 ou 21 anos. Tinha a estatura média das mulheres brasileiras, ou seja, baixinha. Cabelos castanhos, encaracolados, na altura dos ombros, olhos verdes e uma relação cintura-quadril-glúteos que tornava suas viradinhas para a anotação dos conteúdos no quadro uma festa para os olhos dos meninos. Enfim, a mulher era uma gata. Atenção garantida em todas as suas aulas.
- ainda agarro essa mulher.
Eu dizia sempre.
- é ruim heim! Zombava o meio-quilo. Até parece que a professora vai dar mole pra você!
- não precisa dar mole, um dia eu agarro, beijo e pronto.
- é expulso da escola e pronto, ele completava.
Apesar de toda a atenção dispensada a professora minhas notas não eram muito boas. Tá bom, Admito, eram péssimas! Mas nós já contávamos, na época, com um recurso muito comum nas escolas de hoje, uma última prova que poderia substituir todas as outras notas do ano, a recuperação final. Como eu estudava pouco e bagunçava muito a recuperação final era um compromisso agendado para mim meses antes do final do ano e no caso da física não seria diferente.
Uma semana antes das provas bimestrais estávamos aprontando a maior zoeira em sala, como sempre. Usávamos os tubos das canetas esferográficas como zarabatanas e pedacinhos de papel mastigado como projéteis numa pequena batalha durante uma das aulas da Bia, quando a mesma me pegou em nítido flagrante. Olhou para mim, apontou o indicador esquerdo para a porta e disse:
- Fora de sala, agora! E saiba que você não tem a menor chance de passar em física este ano.
Nesse momento algo mais forte do que eu moveu meus lábios e não consegui conter a frase que se tornaria uma lenda em toda a escola nos anos seguintes:
- quer apostar? Seu eu passar na recuperação final vou te dar um beijo. Na boca!
A resposta da Bia veio através de uma gargalhada de deboche e de um infeliz comentário:
- meu filho, eu faço qualquer aposta pois tenho certeza de que você não passa mesmo.
-veremos então! Eu disse, com uma determinação na qual nem mesmo eu acreditava. Saí de sala e fui "bater ponto" na sala do coordenador de disciplina, carinhosamente apelidado pelos alunos de Joseph Menguelle. Para quem não conhece, Menguelle foi um cientista-carrasco nazista que fazia experiencias genéticas com judeus. E o coordenador parecia um carrasco mesmo. As vezes dava medo do cara. Resultado: mais uma ocorrência no meu poluído currículo, que mais perecia a ficha criminal de um bandido reincidente.
O problema maior foi que depois do desafio que eu fiz não havia como voltar atrás. Não aguentaria o sorriso sádico da professora ao anunciar minha derrota. Eu tinha que reverter aquela situação a meu favor.
Estudei como nunca, mas isso não foi suficiente para evitar o óbvio. Fiquei para a recuperação final de física. Entrei em pânico. Se não havia conseguido passar numa prova que envolvia o conteúdo de um bimestre apenas, como passaria numa que continha toda a matéria do ano?
Percebi que a única maneira seria contar com ajuda externa. Mas quem?
Para minha sorte eu tinha um bom relacionamento com quase todos na turma. Mesmo os mais inteligentes e estudiosos me viam com um certo respeito, pois eu não permitia que meus colegas do fundo da sala humilhassem os nossos nerds, na época chamados de CDFs. Essa polItica sempre me fora útil no final do ano.
Assim que cruzei o corredor saindo da sala do coordenador de disciplina, encontrei a provável solução para os meus problemas. Seu nome, Helton. Apelido, Cobaia. O apelido do Helton surgiu, segundo os mais antigos na escola, por conta da mania que o garoto tinha de fazer experiências com insetos quando criança. O muleque era das ciências desde pequeno. Era a pessoa ideal para me ajudar naquele momento difícil. Porém, eu precisava de um bom motivo para convencê-lo a me ajudar. O cara não era exatamente um bom samaritano. Pelo, contrário, era um hábil negociador. Tanto que, anos mais tarde se tornou administrador e um grande investidor da bolsa de São Paulo, em resumo, como qualquer nerd de verdade, ficou rico.
O que eu poderia oferecer ao Cobaia para que ele me ensinasse física? Só havia uma coisa a fazer, dar caminhos para que ele ficasse com a garota dos seus sonhos, Carminha, uma das meninas com quem eu ficava esporadicamente. Convencê-la a participar daquele plano não foi muito difícil, ela sim era uma "boa samaritana". Ela também achou que meu desafio era tão louco e que seus resultados seriam tão marcantes na escola que valeria o sacrifício. O mais curioso foi que eles acabaram namorando após isso e sete anos depois se casaram. Eu fui o padrinho.
Partimos então para a ação. Estudei muito, como só voltaria a a fazer anos mais tarde, no vestibular. Enfim, chegou o grande dia. Na sala, seis pessoas. Bia, a professora, Meio-quilo, Piu-piu, Cícero, Mariana e eu. A algoz e suas cinco vítimas.
Bia distribuiu as provas. No rosto estava estampado aquele meio sorriso sádico, típico dos professores nesses momentos. Porém, ela não conseguiu se controlar e expressou toda a sua satisfação em me ver ali ao me entregar a prova.
- boa sorte, disse ela sorrindo.
- obrigado.
Não resisti, devolvi com outro sorriso. Não podia entregar os pontos.
Numa primeira olhada para as questões fui tomado por um principio de pânico. Na verdade uma crise momentânea de insegurança. Mas olhando bem para cada uma daquelas questões fui percebendo que o cobaia não era só um negociador habilidoso mas também um excelente professor. Passo a passo eu estava desvendando todos os caminhos para a resolução daquela prova. Por fim, nenhuma linha ficou em branco. Terminei aquela prova mais confiante do que nunca, nada poderia me abalar naquele momento, a não ser o sorriso sádico da professora olhando para mim, certa do meu destino. Era o mesmo sorriso que ela tinha no rosto quando aquilo começou. Aquilo sim mecheu com a minha confiança. Como ela poderia estar tão certa da minha derrota? Olhei a minha volta. Todos os meus colegas de infortunio já haviam terminado mas não entregaram. Aguardavam por dois feitos históricos, a minha improvável aprovação final e, é claro a cobrança da aposta.
O momento da entrega das provas foi bastante tenso. Os professores tinham o hábito de corrigirem as provas na hora em que eram entregues, na frente do aluno. Um primor de sadismo. Meu heróico amigo meio-quilo, ao perceber que eu havia terminado, olhou para mim e fez um sinal com a cabeça. Queria que eu fosse logo. Ficou claro para mim que nenhum deles sairia dali antes de mim e, apesar de muito apreensivo, enfrentei o meu destino.
A minha aproximação da mesa da professora foi acompanhada passo a passo pelos colegas presentes. Eles me seguiam com os olhos como se eu fosse uma noiva entrando na igreja. Porém, o sorriso da Bia para mim não eram em nada parecido com o de um noivo que vê sua amada entrar. Mais parecia o de um gordinho quando vê a pizza chegar. Tive a impressão de que a mulher iria me engolir. Respirei fundo e entreguei a prova. As expressões da professora, ao corrigir cada questão, pareciam com as que fazíamos nos exercícios das aulas de teatro. Começaram com o sadismo, passando a estranheza, dúvida. Daí para o medo e, por fim, a expressão de quem se entrega a derrota. Mas, em seguida, veio uma nova cara de espanto e de medo. Acho que ela havia se lebrado da aposta. Foi quando eu perguntei:
- e aí "ssora", passei?
Até hoje eu não sei se a resposta foi sicera ou se ela não quis admitir que havia errado na sua previsão a respeito da minha reprevação:
- passou sim. E eu estou muito satisfeita com isso, pois prova que você é mais inteligente do que pensa e que é capaz de encarar desafios "de frente".
De fato, só entendi o que ela quis me dizer anos mais tarde, quando me tornei professor.
Nesse momento eu queria ser uma mosca para poder olhar a sua cara, querido leitor ou leitora, se perguntando: "e o beijo, rolou?"
Após as palavras da Bia eu fiz de conta que entendi a mensagem e sugeri um gesto de diplomacia.
- puxa professora! Eu esperava ouvir qualquer coisa da senhora, menos isso. Podemos selar a paz com um abraço?
Ela pensou, parecia que ia negar, mas não quis mostrar para os alunos que era uma má perdedora.
- tudo bem, não vejo mal nenhum nisso.
Não se levantou da cadeira, talcez para manter alguma distância. Me aproximei e dei um abraço apertado, enquanto ela virava o rosto de lado por precaução. Bem que nesse momento eu pensei em deixar tudo para lá, mas e a minha reputação de cafajeste, como ficaria? Me afastei um pouco, segurei a cabeça da mulher com as duas mãos e avancei. Dei um beijo forçado. Ela levantou as mãos como se reagisse a um assalto e, para o meu espanto, retribuiu o beijo. Com os olhinhos fechados e tudo!
- desculpe mas aposta é aposta.
Quando a larguei vi mais um mosaico de sentimentos passando pelo rosto da Bia. Que terminou com uma expressão de ira.
-saia da minha frente agora!
Eu obedeci imediatamente, tive receio do que aconteceria depois daquilo mas, no fim, não deu em nada. As notícias que eu recebi dos colegas que ficaram na sala eram de que, após a minha saía, a Bia olhou para eles e disse com firmeza:
-ninguém aqui viu nada!
Chamou um por um e corrigiu as provas.
A ultima a sair de sala foi a Mariana, que me massageou meu ego com a melhor das notícias. Ela me disse que, durante as correções e expressão da Bia não se alterou e ela ficou o tempo todo de "cara fechada", mas enquanto saía da sala olhou para trás e viu, pela fresta da porta, um sorriso daqueles que só as mulheres conhecem, escapar do rosto da professora. Alguém aí sabe o que isso significa para um cara prestes a completar dezessete anos?

3 comentários:

Unknown disse...

"Alguém aí sabe o que isso significa para um cara prestes a completar dezessete anos?"

Resp.: Horas no banheiro????

Márcio Calixto disse...

AHAHAH, me amarrei. Fala bonitão, como andam as coisas?!

Abraços pra ti

aproveita: www.pictorescos.blogspot.com

Srta Kahh disse...

Adorei essa história! Muito boa! HAhHAhahh