Em junho de 2013 ele acordou. Despertou de um sono ao qual
foi forçado em 1964, quando começou a tomar altas doses de poderosos soníferos
que o fizeram sonhar com um mundo tranquilo, de paz, segurança, ordem e progresso.
Os doutores que administravam seus medicamentos e velavam seu sono eram
bastante competentes e renomados. Vestiam jalecos, mas não apenas os de
tradicional cor branca, também vestiam verde, azul e cinza. Outros usavam
ternos muito bem alinhados. O remédio custava caro, mas isso não era problema,
um grupo de amigos ricos tinha muita grana para emprestar a juros baixos, desde
que os doutores se comprometessem a manter o gigante em um sono tranquilo e com
bons sonhos. Para garantir que o gigante seria um bom garoto e se comprometeria
a ir para a cama cedo, contaram-lhe histórias sobre um bicho-papão, de longos
pelos vermelhos, que comia crianças no café da manhã. Mas os doutores sempre
prometiam ao jovem gigante que ele estaria sempre protegido durante seu sono, a
qualquer custo. Fariam de tudo para manter o mal sempre distante.
Vinte e oito anos se passaram e durante este tempo o mundo
mudou. Doutores vestidos de azul e amarelo assumiram o plantão. Alguns
bichos-papões deixaram de existir. Outros se adaptaram a ambientes semelhantes
ao quarto do gigante e ao espaço do plantão. Porém, como desconfiavam dos
doutores, alguns continuaram vestindo seus casacos de pele vermelha. Enquanto isso,
foram buscando suas formas próprias de adaptação ao novo mundo. Mas, de fato,
eles estavam muito mais de acordo com os doutores que atuavam (e atuam) pelo
mundo afora do que os velhos bichos-papões poderiam sonhar. Os doutores que
cuidavam do gigante durante este período mudaram o remédio e aumentaram a
dosagem do sonífero. Porém, esse novo medicamento não apresentou 100% de
eficácia, como prometia a bula e o gigante quase acordou. O custo do tratamento
subiu, já que os amigos ricos exigiam o retorno dos empréstimos contraídos pela
equipe anterior e o pagamento dos juros. Com isso, os credores passaram a
interferir intensamente nas decisões tomadas no plantão. A competência dos
doutores foi posta em dúvida.
Diante deste quadro, um novo grupo assumiu o plantão. Os
doutores de azul e amarelo foram demitidos. Novos doutores, que se vestiam de
vermelho, mas que haviam se infiltrado no universo de seus colegas de azul e
amarelo, se aliando a antigos amigos destes que andavam insatisfeitos com a
forma como os velhos donos do plantão centralizavam as decisões. Essa nova
equipe, agora dita “multidisciplinar”, experimentou novas fórmulas, alterou
dosagens, vez ou outra ministrava novos soníferos. Porém cometeu um grande
erro, reconheceu a existência de um segundo gigante, irmão do nosso amigo que
dormia e resolveu ceder um pouco dos medicamentos a ele. Mesmo se tratando de
uma dose pequena, aquilo foi suficiente para tirar o nosso amigo do seu estado
de sono.
O gigante acordou, vinte e oito anos após se deitar, o que
para ele pareciam apenas dias. Quando olhou a sua volta, não reconheceu nem o
quarto, nem o hospital. Aparentemente tudo estava mudado. Paredes pintadas, saguão
lotado, doutores diferentes e muitos escândalos de erros por parte destes. Como
não acompanhou as transformações ocorridas ao longo do seu período de sono, o
gigante acreditou que aquele terrível bicho-papão do qual seus velhos doutores
falavam havia tomado o plantão. Como esteve dormindo por tanto tempo, não
percebeu quantos erros, causados pelos seus doutores e por todos os outros que
os sucederam prejudicaram as vidas de muitos. Daí, ele só conseguia concluir
que os novos doutores, com seus jalecos vermelhos, seriam os culpados por
tantas mudanças que, de fato nada de diferentes tinham em relação aos plantões
anteriores, apenas as cores dos jalecos mudaram de fato.
A partir daí, nosso amigo gigante partiu a cobrar a volta de
seus velhos doutores. Ele nada sabe sobre os motivos que levaram a substituição
destes ou de seus sucessores, só sabe que acordou e viu tudo diferente, pelo
menos em relação aquilo que ele entendia ser o espaço a sua volta, seu
conhecimento era limitado. Ele só conseguia enxergar seu mundo a partir da
divisão das coisas entre as que são “do bem” ou “do mal”, assim como seus
velhos doutores o ensinaram. Ah, e que história é essa de irmão desconhecido
pegou mal demais para ele. “Filho bastardo não deve ter direitos”, diz ele.
Acredita que não tem culpa pela irresponsabilidade de todos que cuidaram dele até
então e que, como ele paga seu plano em dia, todo o medicamento deve voltar a
ser injetado apenas em seu soro.
Mas se engana você que acha que o gigante tenha acordado por
querer transformar o plantão, criar novas fórmulas, tratamentos ou estratégias
de administração. O que ele quer é voltar a receber seu sonífero, sem interferências,
sem perder uma gota sequer e voltar o mais rápido possível a dormir tranquilo, protegido
do mal, deitado em seu berço esplêndido.
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