quarta-feira, 22 de abril de 2015

O GIGANTE QUER VOLTAR PARA A CAMA


Em junho de 2013 ele acordou. Despertou de um sono ao qual foi forçado em 1964, quando começou a tomar altas doses de poderosos soníferos que o fizeram sonhar com um mundo tranquilo, de paz, segurança, ordem e progresso. Os doutores que administravam seus medicamentos e velavam seu sono eram bastante competentes e renomados. Vestiam jalecos, mas não apenas os de tradicional cor branca, também vestiam verde, azul e cinza. Outros usavam ternos muito bem alinhados. O remédio custava caro, mas isso não era problema, um grupo de amigos ricos tinha muita grana para emprestar a juros baixos, desde que os doutores se comprometessem a manter o gigante em um sono tranquilo e com bons sonhos. Para garantir que o gigante seria um bom garoto e se comprometeria a ir para a cama cedo, contaram-lhe histórias sobre um bicho-papão, de longos pelos vermelhos, que comia crianças no café da manhã. Mas os doutores sempre prometiam ao jovem gigante que ele estaria sempre protegido durante seu sono, a qualquer custo. Fariam de tudo para manter o mal sempre distante.
Vinte e oito anos se passaram e durante este tempo o mundo mudou. Doutores vestidos de azul e amarelo assumiram o plantão. Alguns bichos-papões deixaram de existir. Outros se adaptaram a ambientes semelhantes ao quarto do gigante e ao espaço do plantão. Porém, como desconfiavam dos doutores, alguns continuaram vestindo seus casacos de pele vermelha. Enquanto isso, foram buscando suas formas próprias de adaptação ao novo mundo. Mas, de fato, eles estavam muito mais de acordo com os doutores que atuavam (e atuam) pelo mundo afora do que os velhos bichos-papões poderiam sonhar. Os doutores que cuidavam do gigante durante este período mudaram o remédio e aumentaram a dosagem do sonífero. Porém, esse novo medicamento não apresentou 100% de eficácia, como prometia a bula e o gigante quase acordou. O custo do tratamento subiu, já que os amigos ricos exigiam o retorno dos empréstimos contraídos pela equipe anterior e o pagamento dos juros. Com isso, os credores passaram a interferir intensamente nas decisões tomadas no plantão. A competência dos doutores foi posta em dúvida.
Diante deste quadro, um novo grupo assumiu o plantão. Os doutores de azul e amarelo foram demitidos. Novos doutores, que se vestiam de vermelho, mas que haviam se infiltrado no universo de seus colegas de azul e amarelo, se aliando a antigos amigos destes que andavam insatisfeitos com a forma como os velhos donos do plantão centralizavam as decisões. Essa nova equipe, agora dita “multidisciplinar”, experimentou novas fórmulas, alterou dosagens, vez ou outra ministrava novos soníferos. Porém cometeu um grande erro, reconheceu a existência de um segundo gigante, irmão do nosso amigo que dormia e resolveu ceder um pouco dos medicamentos a ele. Mesmo se tratando de uma dose pequena, aquilo foi suficiente para tirar o nosso amigo do seu estado de sono.
O gigante acordou, vinte e oito anos após se deitar, o que para ele pareciam apenas dias. Quando olhou a sua volta, não reconheceu nem o quarto, nem o hospital. Aparentemente tudo estava mudado. Paredes pintadas, saguão lotado, doutores diferentes e muitos escândalos de erros por parte destes. Como não acompanhou as transformações ocorridas ao longo do seu período de sono, o gigante acreditou que aquele terrível bicho-papão do qual seus velhos doutores falavam havia tomado o plantão. Como esteve dormindo por tanto tempo, não percebeu quantos erros, causados pelos seus doutores e por todos os outros que os sucederam prejudicaram as vidas de muitos. Daí, ele só conseguia concluir que os novos doutores, com seus jalecos vermelhos, seriam os culpados por tantas mudanças que, de fato nada de diferentes tinham em relação aos plantões anteriores, apenas as cores dos jalecos mudaram de fato.
A partir daí, nosso amigo gigante partiu a cobrar a volta de seus velhos doutores. Ele nada sabe sobre os motivos que levaram a substituição destes ou de seus sucessores, só sabe que acordou e viu tudo diferente, pelo menos em relação aquilo que ele entendia ser o espaço a sua volta, seu conhecimento era limitado. Ele só conseguia enxergar seu mundo a partir da divisão das coisas entre as que são “do bem” ou “do mal”, assim como seus velhos doutores o ensinaram. Ah, e que história é essa de irmão desconhecido pegou mal demais para ele. “Filho bastardo não deve ter direitos”, diz ele. Acredita que não tem culpa pela irresponsabilidade de todos que cuidaram dele até então e que, como ele paga seu plano em dia, todo o medicamento deve voltar a ser injetado apenas em seu soro.

Mas se engana você que acha que o gigante tenha acordado por querer transformar o plantão, criar novas fórmulas, tratamentos ou estratégias de administração. O que ele quer é voltar a receber seu sonífero, sem interferências, sem perder uma gota sequer e voltar o mais rápido possível a dormir tranquilo, protegido do mal, deitado em seu berço esplêndido. 

Nenhum comentário: