segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Somos todos corruptos

No último fim de semana, uma situação das mais simples, mais corriqueiras, que vivi ao lado da minha filha, me fez perceber o quanto a corrupção, o "jeitinho", a necessidade de levarmos vantagem sempre (a chamada "lei do Gerson"), estão enraizados em nossa cultura e o quanto temos que lutar para tirá-los de nossos comportamentos mais automáticos.
Estávamos em Niterói, cidade natal de minha filha e lugar onde eu cresci. Fomos visitar minha mãe. Em certo momento, pegamos o carro para irmos a uma farmácia, do outro lado do bairro, uma região como tantas outras, onde encontrar uma vaga para estacionar  faz os doze trabalhos de Hércules parecerem um dia na Disney.
Então, numa esquina bem próxima ao nosso destino, vimos vários carros estacionados numa calçada, onde cada poste ostentava uma placa de "proibido estacionar". Entre dois desses postes, bem a minha frente, um carro estava saindo.
Não me lembro exatamente quantas ponderações fiz naquele momento, mas estou certo de que fiz todas em voz alta, compartilhando meus pensamentos com minha filha, como se pedisse conselhos a ela. Pensamos, "tem as placas, mas um monte de gente estaciona e parece que não há fiscalização". Horas antes vimos um homem estacionar em área proibida diante de duas fiscais de trânsito que não interromperam seu animado papo para alertar o motorista de sua infração. O que dizer então daquele lugar onde sequer havia um fiscal?
"Filha, acho que vou estacionar aqui mesmo, é rapidinho".
Ela não respondeu. Fez uma carinha de desaprovação mas nada falou, talvez para não contrariar o pai. Daí eu decidi.
"Quer saber? O certo é o certo, mesmo que ninguém esteja fazendo. Minha necessidade não é maior do que a de ninguém", disse a ela. Desisti da vaga e segui em frente, certo de que dificilmente acharia uma vaga tão próxima. Para nossa sorte, havia uma em frente à farmácia. Própria para clientes.
Saí do carro certo de que dei, assim como o meu pai sempre fez comigo, o melhor exemplo para minha filha. Ao mesmo tempo, constatei o quanto nós temos noção do que é certo ou errado e de que muitas vezes optamos pelo erro sem notarmos o quanto todas essas pequenas ações, juntas, prejudicam a vida em sociedade. Sim, isso também é corrupção! É achar que as suas necessidades são maiores do que as da sociedade.
Somos todos corruptos e de nada valerá nenhuma critica, nenhuma luta ou passeata enquanto não admitirmos isso e lutarmos para modificar, cada um, o nosso modo corrupto de ser.

Nenhum comentário: